segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O apelo do folclore brasileiro

Segundo entusiasta, folclore nacional deve se consolidar antes de adotar novas estórias

Na verdade, ele nunca desapareceu só se afastou. O folclore brasileiro carrega alguns paradoxos em sua responsabilidade. A primeira delas deriva de seu nome: folk, que significa povo em inglês e lore, conhecimento. Sua junção derivou o nome em português, folclore, que é o nome dado às culturas que identificam um povo: dança, culinária, música, personagens e lendas. A denominação foi dada pelo britânico William Jonh Thoms, no século XIX, para aquilo que ele chamava “antiguidades populares”.
No Brasil, entre Mula-Sem-Cabeça, Sereias, Bois-Tatás, Lobisomem e demais “negrinhos”, existe um que não se apaga da mente dos mais velhos e de um nicho significante de jovens: o Saci-Pererê ou, como dizem alguns, Saci-Cererê, Saci-Trique, Saçurá, Mati-taperê, Matiaperê, Matimpererê, Matintaperera, Capetinha da Mão Furada.
 O surgimento do menino negro, de boina, bermuda vermelha e de uma perna só, surgiu no fim do século XVIII. Durante a escravidão, as amas-secas e os caboclos-velhos assustavam as crianças ao relatar suas travessuras e maldades, segundo o site de pesquisas escolares “Sua pesquisa”.
O nome Saci é de origem Tupi-Guarani. No Brasil, cada região descreve o personagem como bem entende; uns o nomeiam como um bom garoto e outros, como um ser diabólico. Silmara Martinho, 49, pedagoga, vai além na definição. “Ouço e repasso o folclore do Saci-Pererê (como prefere chamá-lo), mas, como professora de educação especial enxergo a lenda como um caso a ser estudado, considerando alguns aspectos preconceituosos nas características do garoto: negro e deficiente físico.” Talvez, tais características simbolizem a visão preconceituosa e espontânea partida das pessoas daquela época, sobre o mais famoso personagem do folclore brasileiro. No entanto, suas características físicas e de personalidade se concretizaram na mente das crianças e de muitos adultos, que até hoje sentem medo de duvidar do travesso-diabólico Saci.
Alguns fãs do Saci montaram um site alimentado por histórias, músicas, vídeos, culinária, casos de aparições e manifestações sobre a condição da cultura popular brasileira. Os interessados em saber mais sobre o “negrinho” e o site, basta acessar: www.sosaci.org. Lá, organizadores e parceiros buscam resgatar os valores deste personagem e envolvê-lo nas estórias contadas, cantadas, lembradas nos dias de hoje.
Apesar de sua fama de travesso e maldoso, na série infantil, Sítio do Pica Pau Amarelo (1977-1986), obra homônima do escritor brasileiro, Monteiro Lobato (1882–1948), que foi exibida pela TV Globo, o Sacizinho é descrito como companheiro e amigo de todos, apesar de suas travessuras, ele não deixou impressões diabólicas ou que pudesse colocar seu caráter em jogo pelas crianças e seus pais.
Para o artista plástico e professor de arte contemporânea, Adriano Gianolla, 40, a imagem do negrinho tem várias versões, de acordo com o objetivo no qual ele é mencionado. “Se percorremos o território (nacional) vamos perceber que as crianças têm relações diferentes, mesmo culturalmente, com o Saci. Talvez, para a criança “de antigamente” ele fosse mencionado para botar medo, como, “Olha o saci, ele vai pegar você, se for malcriado”, explica. Para ele, existe uma extinção dos personagens folclóricos no geral. “As crianças de hoje não dão importância para ele (Saci), as gerações atuais estão "matando” o coitado, e não só ele, a Sereia Iara, o Lobisomem, o Boi-Tatá, a Cuca.”, desabafa.
Foto: divulgação - Adriano Gianolla
adrianogianollaartes.blogspot.com

O artista plástico personifica a ideia do folclore brasileiro, “O lúdico é extremamente importante, ele ajuda a criança a sonhar e a desenvolver sua imaginação e criatividade. Se eu não tivesse acreditado no Papai Noel, esperado na manhã seguinte o meu presente em baixo da árvore, e no lobisomem que arranhava a porta dos fundos, será que eu conseguiria olhar para uma parede branca e imaginar o desenho ali, ou olhar pra meu futuro e ter uma perspectiva de que vou conseguir alcançar meus objetivos?
Entre tantos costumes espalhados ao redor do mundo, os brasileiros adotaram um novo folclore para seu acervo. Neste, bruxas, vampiros, Frankstein, monstros e abóboras com velas dentro fazem toda a diferença na noite de 31 de outubro. Este é um dia em que crianças e alguns adultos saem às ruas fantasiados de personagens de terror e batem de porta em porta pedindo doces. Esse ritual ‘macabro’ também pode ser chamado de Halloween, traduzindo, Dia das Bruxas.
O Halloween surgiu na Irlanda e chegou aos Estados Unidos em meados do século XIX. Apesar de sua origem irlandesa, a data teve sua ascensão no país norte-americano, onde, até hoje, o evento mobiliza crianças e adultos, na busca por “doçuras ou travessuras”. O Dia das Bruxas é de origem pagã e tem mais de dois mil anos, mas sua vinda ao Brasil foi o reflexo de uma onda conseqüente, chamada globalização.
Hoje, muitas escolas de idiomas e até mesmo de ensino fundamental e médio realizam festas e eventos em comemoração à data. Adotada como norte-americana, ela é comemorada no dia 31 de outubro, mesmo dia escolhido em 2005, para ser o Dia do Saci. Segundo entrevista dada ao site g1.com, Mário Candido Filho, presidente da Sociedade de Observadores de Saci (Sosaci), disse que a data foi escolhida propositalmente, na tentativa de excluir da mente dos brasileirinhos e ideia de que o mês de outubro é o mês do Halloween.
Adriano, é um grande repercurtor da cultura popular brasileira. Para ele não há problema algum em globalizar culturas, a dificuldade maior é equlibrar aquilo que é do nosso país com o que é internacional. “O que deveria acontecer é um incentivo à cultura do nosso país, no sentido de patrimônio imaterial, incluso no currículo escolar. Não estou generalizando, vejo sempre algumas escolas comemorar as festas populares e ao mesmo tempo, as “americanizadas”. Conhecer a cultura importada é válida quando já conhecemos a nossa”, pontua.
Talvez, declarar o dia 22 de agosto como o Dia do Folclore não seja o suficiente para valorizar personagens lendários do Brasil. Como Gianolla diz, a grande movimentação mercadológica e financeira, pode ser a responsável pela miscigenação cultural entre os países. A globalização trouxe a tecnologia, mercado e culturas diferentes, mas há àqueles folclores que personificam, especificamente, as crianças brasileiras que se desprendem das estórias contadas pelos seus descendentes e se encantam por um mundo diferente e desconhecido por elas.